A luz de Lisboa entra pela janela do meu pequeno apartamento em Alfama enquanto abro o X pela terceira vez esta manhã. O café arrefece na chávena de cerâmica que trouxe de Melbourne — um hábito que não consigo largar, mesmo depois de três anos em Portugal. Aos 23, ainda me sinto uma estranha nestas ruas estreitas, mas o ecrã do telefone é o único lugar onde me sinto verdadeiramente em casa.
O feed mostra-me um mundo que não para: trailers de Bollywood a gerar milhões de reações na Índia, debates sobre regulamentação de redes sociais no Reino Unido, uma aplicação de contagem de calorias que faturou 30 milhões de dólares graças a um “exército de micro-influenciadores”. E eu aqui, a tentar perceber como transformar a minha paixão por fotografia e storytelling visual em algo que ressoe — e que pague as contas do call center onde atendo chamadas em inglês com um sotaque que ainda soa a Austrália.
Hoje quero falar-vos de algo que me tem mantido acordada nas noites de insónia: como a criatividade mexicana está a redesenhar a publicidade no X, e o que nós, criadores em Portugal, podemos aprender com isso para 2026.
A estética que atravessa oceanos
Lembro-me da primeira vez que vi uma campanha mexicana no X. Era 2023, ainda trabalhava num estúdio de fotografia em Melbourne, e um cliente pediu-me para analisar “aquela coisa vibrante que os mexicanos fazem”. Não era apenas cor. Era narrativa. Era a forma como uma marca de tequila contava a história de três gerações de jimadores (os colhedores de agave) em 280 caracteres e um vídeo de 15 segundos. Chorei. A sério. No meio do open space, com os colegas a falar de KPIs, eu a limpar lágrimas porque uma marca de álcool conseguiu captar a saudade que sinto da minha avó em Sydney.
Essa estética — a que os mexicanos chamam rasquachismo, a arte de fazer muito com pouco, de transformar limitação em poesia visual — está agora a chegar a Lisboa. Vi isso na campanha da Super Bock este verão. Vi isso num anúncio da TAP que mostrava um avô em Trás-os-Montes a ensinar a neta a fazer queijo de cabra, narrado em português com legendas em inglês, espanhol e… náuatle. Sim, náuatle. A língua asteca. Porque a agência contratada era de Cidade do México.
Porque é que isto importa para ti, que estás a ler isto talvez num café no Porto, ou no teu quarto em Coimbra, a tentar crescer no X?
Porque o algoritmo não conhece fronteiras. Mas a cultura sim.
O que o México nos ensina sobre “viral” em 2026
Os dados recentes confirmam o que a intuição já sussurrava: um estudo global publicado a 16 de outubro mostra que vídeos curtos e influenciadores são os principais motores de decisão de compra em 2026. Não é novidade. A novidade é como os criadores mexicanos estão a estruturar esses vídeos.
Vi o trailer do novo Ramayana a explodir no X na Índia — Ranbir Kapoor como Rama, Yash como Ravana, uma batalha visual que dividiu opiniões: uns chamam “casting de uma vida”, outros dizem que o CGI “falta autenticidade”. A discussão gerou milhões de impressões em horas. Mas o que me prendeu não foi o filme. Foi a forma como contas mexicanas de comentário cultural pegaram no tema e criaram threads comparando a estética do Ramayana com o Popol Vuh maia. Narrativas épicas, efeitos visuais questionáveis, devoção do público. O mesmo padrão. Culturas diferentes.
Isto é glocal na sua forma mais pura. Pegar num formato global (o trailer blockbuster, a reação no X) e enraizá-lo em referências locais profundas.
Para nós em Portugal: o que é o nosso Popol Vuh? As lendas de Pedro e Inês? Os contos do Livro de Linhagens? A música pimba elevada a arte pop? A resposta não está em copiar o México. Está em roubar-lhes o método.
A anatomia de um anúncio que parece conteúdo
No call center, entre chamadas, anoto padrões. Vi isto repetidamente nas campanhas mexicanas que performam bem no X em 2026:
Primeiro: a história não começa com o produto. Começa com a ferida.
Uma campanha da Cinépolis (cadeia de cinemas mexicana) para o Dia dos Mortos não mostrava pipocas nem bilhetes. Mostrava uma mulher jovem a limpar o túmulo do pai, a colocar cempasúchil (flores de morto), a falar sozinha: “Papá, o ‘Coco’ voltou ao cinema. Tu ias adorar a cena do esqueletos a cantar. Eu chorei. Tu não estavas aqui para me passar o lenço.” O logotipo da Cinépolis aparecia só no último segundo. “O cinema é onde os mortos voltam a viver.”
Chorei outra vez. No meio de uma chamada sobre faturas de eletricidade.
Segundo: o formato respeita a plataforma, não a marca.
No X, isto significa threads que se leem como crónicas, não como comunicados de imprensa. Significa Spaces onde o fundador da marca responde a perguntas às 2 da manhã (horário da Cidade do México, que é madrugada em Lisboa — perfeito para nós, notívagos). Significa memes que a própria marca faz de si mesma antes que os outros façam.
Terceiro: a comunidade é co-autora, não audiência.
A aplicação Cal AI — aquela que faturou 30 milhões em dois anos — não contratou “influenciadores” no sentido tradicional. Contratou 500 micro-criadores: estudantes de nutrição, mães que partilham marmitas no TikTok, personal trainers em ginásios de bairro. Cada um recebeu um código único. A narrativa não era “comprem a app”. Era “como eu como bem sem obsessão”. O resultado: 30 milhões de receita, aquisição pela MyFitness. O segredo não era o orçamento. Era a confiança distribuída.
Como trazer isto para o teu X em Portugal
Não tens orçamento da Cinépolis. Nem equipa da Cal AI. Tens o teu telefone, a tua visão, e talvez — como eu — o medo de que ninguém ligue, ou pior, que liguem para criticar.
Aqui está o que estou a testar, e que podes testar também:
1. Mapeia as tuas “feridas culturais” partilhadas
O México tem o Dia dos Mortos, a saudade dos que partiram, a resistência indígena. Portugal tem a saudade (a palavra intraduzível que levo tatuada no pulso), tem o fado, tem a emigração, tem as festas populares que cheiram a sardinha e a manjerico. Tem a história de um país pequeno que olhou para o mar e viu o mundo.
Pergunta-te: que dor colectiva ou alegria colectiva os portugueses partilham em 2026? A crise da habitação? O envelhecimento populacional? O orgulho ferido de sermos “periferia da Europa” mas “centro do mundo lusófono”? A nostalgia de um futuro que nos prometeram e não chegou?
A tua próxima thread no X deve nascer daí. Não do teu produto. Não do teu serviço. Da ferida partilhada.
2. Usa o “rasquachismo” visual: beleza na imperfeição
A minha formação é em fotografia e imaging. Aprendi luz perfeita, composição áurea, retouche impecável. Mas no X em 2026, o que para é o imperfeito. A foto tremida da varanda em Alfama com a legenda: “Esta luz às 19h30 vale mais que o meu salário do mês.” O vídeo mal editado de ti a tentar fazer pastéis de nata pela primeira vez, com a massa a colar-se aos dedos: “A minha avó faria melhor. Mas ela não está aqui. Eu estou. E isto sabe a casa.”
A estética mexicana ensina: o rasquache não é amadorismo. É autenticidade curada. É dizer “isto sou eu, isto é real, isto é meu” num mundo de IA generativa e filtros perfeitos.
3. Constrói o teu “exército” — mas chama-lhes comadres e compadres
No México, comadre e compadre são os padrinhos dos teus filhos — laços rituais mais fortes que sangue. No teu X, quem são as tuas comadres?
Não procures “influenciadores” com 100k seguidores. Procura a rapariga que faz cerâmica em Caldas da Rainha e partilha o processo no X com 800 seguidores fiéis. O rapaz que ensina programação em português no Porto com 1.200 seguidores que confiam no seu código. A avó que partilha receitas de caldo verde em Braga e tem 300 netos digitais.
Convida-os para um Space mensal: “Como fazemos isto juntos?” Partilha códigos de afiliado se tiveres produto. Partilha audiências se fores criador. Partilha vulnerabilidade sempre.
O estudo do Cal AI prova: 500 micro-vozes batem uma macro-voz. Sempre.
4. Domina o thread como forma literária
Os mexicanos elevaram o thread a género literário. Começam com gancho emocional: “A minha avó ensinou-me a fazer tortillas aos 6 anos. Hoje, aos 34, percebo que ela me estava a ensinar a não desaparecer.” Depois, 15-20 tweets que desenrolam a história, cada um autónomo mas cumulativo. Terminam com call to action suave: “Qual é a receita que te mantém ligado a quem partiu? Partilha nos comentários — vou ler todos.”
Em Portugal, temos a tradição da crónica de jornal. Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Natália Correia. O thread é a crónica do século XXI. Escreve-o como se fosse para o Público ou o Expresso, mas com a brevidade do X.
5. A publicidade entra pela porta dos fundos
Quando a marca aparece no final — ou nem aparece, só a tua assinatura — a confiança já foi construída. É nesse momento que podes dizer: “A propósito, uso a câmara X para estas fotos” ou “Este projeto foi apoiado pela marca Y” ou “Se queres aprender a fazer isto, o meu workshop abre inscrições na sexta.”
O público mexicano no X rejeita o hard sell. O público português também. Somos desconfiados por natureza — séculos de impérios, ditaduras, crises ensinaram-nos a ler nas entrelinhas. Respeita isso.
O calendário editorial de 2026: datas que importam em Portugal
Não copies o calendário mexicano. Cria o teu:
- Janeiro: Reis — não só a tradição, mas o que “reinar” significa para criadores independentes
- Fevereiro: Carnaval — máscaras, identidades, o que escondemos e revelamos online
- Março: Equinócio — renovação, projetos que nascem, spring cleaning digital
- Abril: 25 de Abril — liberdade de expressão, censura algorítmica, voz própria
- Maio: Fátima / Romarias — peregrinação, devoção, comunidades que caminham juntas
- Junho: Santos Populares — festa, vizinhança, economia informal, manjerico como metáfora
- Julho: Férias / Emigração — o regresso dos franceses, a diáspora, o que é “casa”
- Agosto: Calor / Incêndios — crise climática, solidariedade, resiliência rural
- Setembro: Regresso / Vindimas — colheita, resultados, preparar o inverno
- Outubro: Chuvas / Castanhas — conforto, transição, histórias à lareira (ou ao Space)
- Novembro: Dia de Todos os Santos — memória, legado, o que deixamos no digital
- Dezembro: Natal / Passagem de Ano — balanço, gratidão, intenções para 2027
Cada data é uma thread. Cada thread é uma porta de entrada para a tua comunidade.
O medo não vai embora — e não deve
Voltando ao meu apartamento em Alfama. O café está frio. O X mostra-me uma notificação: alguém respondeu à thread que publiquei ontem à noite sobre a luz de final de tarde em Lisboa. “Também choro com esta luz. Bem-vinda a casa.”
Não sei quem é. Sei que me fez sentir menos sozinha.
O medo de comentários negativos, de não ser “bastante boa”, de expor demasiado — esse medo é o preço da entrada. Os criadores mexicanos que admiro não são destemidos. São corajosos apesar do medo. Publicam com as mãos a tremer. Respondem ao hater com: “Obrigada por leres. Espero que tenhas um bom dia.” E continuam.
Em 2026, no X, em Portugal, a tua vantagem competitiva não é o teu equipamento, nem o teu algoritmo, nem sequer o teu talento. É a tua capacidade de permanecer humana numa plataforma que premia o performativo.
O México ensinou-me isso. Portugal ensina-me a vivê-lo todos os dias.
📚 Leituras para continuar a jornada
Se isto ressoou, estas três peças ajudam a aprofundar:
🔸 Reações no X ao trailer de Ramayana: Yash como Ravana divide opiniões
🗞️ Fonte: Moneycontrol – 📅 16 out 2026
🔗 Ler artigo completo
🔸 Estudo global: vídeos curtos e influenciadores impulsionam compras
🗞️ Fonte: NewsBreak – 📅 16 out 2026
🔗 Ler artigo completo
🔸 Sucesso viral do Cal AI: exército de micro-influenciadores gera 30 milhões
🗞️ Fonte: TechCrunch – 📅 15 out 2026
🔗 Ler artigo completo
📌 Uma nota sincera
Este texto mistura observação de tendências públicas com a minha experiência pessoal como criadora e estratega na BaoLiba.
É para partilha e conversa — nem tudo é dados verificados oficialmente.
Se algo não bate certo, diz-me. Corrigimos juntos.